Cobertura de Pegada: Quebrando o silêncio

Reportagem por Pâmilla Vilas Boas
Fotos por Érico Silva

Faltavam sete quilômetros, andamos bastante e ainda faltavam quatro. O caminho para Ribeirão das Neves parecia interminável. Mesmo com toda a ansiedade, os elementos da paisagem nos distraíam. Primeiro foi ver aquela mata, já chegando no município de Ribeirão das Neves, com um monte de capivara, depois a placa que indicava “Compre um lote no belvedere do Ceasa”. “Bem Cães do Cerrado”, comentou Paulo Malibu. Se percebemos tanta coisa foi pelos infinitos quebra-molas até chegar na cidade. Tinha um que parecia imenso, era o medo de passar devagarzinho em frente a penitenciária.

Ribeirão das Neves durante alguns anos ficou em completo paradeiro cultural. A cidade abriga os principais presídios da região metropolitana de Belo Horizonte e hoje guarda o estigma da violência. Mas nos dias 11 e 12 de dezembro, com o Festival Semifusa, realizado pelo coletivo de mesmo nome, já foi possível perceber a agitação cultural na cidade. Ribeirão das Neves tem sim muita banda e muita gente que curte o som independente.

E quando chegamos no centro, não foi difícil encontrar a casa de shows onde acontece o festival. Explicando melhor, não era bem uma casa de shows, era o Balada’s hall. O lugar parecia uma quadra de futebol ou um ginásio escolar. Para trazer um ambiente mais próximo de um evento musical, vários balões decoravam o teto que era de metal. Os belo horizontinos acharam estranho, eu não, sei bem como é fazer evento no interior. Um dos fundadores do coletivo Semifusa, Rodolfo Gullar, me explicou que eles fizeram uma parceria com o dono do galpão e conseguiram esse espaço para o evento. Geralmente, lá é o lugar que toca funk e pagode, mas nesse dia foi para as diferentes bandas da região. Não é lugar adequado para shows, mas sabemos bem que não é de perfeição que a música independente vive, ainda mais para um coletivo recém- nascido como o Semifusa.

O Semifusa começou em abril desse ano e já está bancando festival. Sem muitos recursos, usaram da falta de dinheiro com criatividade. Para realizar o evento, os integrantes do coletivo pagaram 30 reais cada um, dividido em três vezes. Com o dinheiro levantado, compraram um iphone e rifaram. Com isso pagaram o aluguel do som.

Heavy heavy

O primeiro dia do festival foi pesado e contou com várias bandas do coletivo Semifusa. Tinha muita gente de camisa preta, correndo, rolando no chão e fazendo o tradicional mosh. Aquela rodinha típica se formou na frente dos shows. Principalmente quando a banda local Última Ratio, subiu aos palcos. O pessoal com camisas Iron Maiden e companhia se aproximaram, no refrão de uma das músicas, todos ergueram os braços e cantaram juntos. O público se animou muito com os shows mais pesados. Diferente foi a terceira banda, a Matraca de Justinópolis, o som era bem mais pop se comparado com as bandas anteriores. O que foi suficiente para parar a mosh dos mais empolgados, porque a grande maioria do público, nesse momento, se dispersou.

“Eu já vendi minha guitarra várias vezes por 50 reais depois do show do 4 Instrumental. Se você tiver vontade de vender a sua, não se preocupe, é assim mesmo”, me avisou Flávio Charchar antes da banda começar a tocar. Confesso, fiquei estarrecida e deu mesmo vontade de parar de tocar guitarra ao ver o guitarrista da banda. Eles tocam muito. Nesse momento, o público se reuniu em frente ao palco. A mosh naturalmente acabou e a maioria foi prestar atenção nas músicas. A sutileza do instrumental, as mudanças repentinas, a união perfeita dos integrantes. Foi nesse momento que compreendi a força da música instrumental.

Só amanhã de manhã

Nos dois dias de festival, o público era modesto, no primeiro eu até achei que tinha muita gente, mas no sábado estava mais vazio. Não era o que o coletivo esperava. O integrante da banda Cidadão Comum e do Semifusa, Tim Santos, disse que contavam com mais público. “A gente marcou essas datas e depois percebemos que tinham vários eventos na cidade. Teve muita formatura, por exemplo. E isso faz muita diferença em eventos no interior”, comenta.

Se no começo o espaço estava vazio, com o passar do tempo, as pessoas foram chegando aos poucos. Duas horas depois que havíamos entrado, começou a tocar a banda Verto de Ribeirão das Neves. A formação era inusitada: baixo acústico, violão e guitarra. Isso mesmo, não tinha bateria. Quem assistiu, gostou. O guitarrista que tocava com arco de violino e as melodias chamaram a atenção. No começo, eu não senti falta da bateria. Não sei por que, mas eu só lembrava das levadas de bateria do Interpol. Acho que isso significa alguma coisa…

Depois foi a vez da banda Curved. Eles despertaram o público que rapidamente refez a mosh e balançaram muito a cabeça. A Mariana Barbosa foi convidada a cantar uma música. Começaram com Los Hermanos e depois passaram para uma música mais new metal. Gostei da brincadeira. O Festival se encerrou com a apresentação da banda Cidadão Comum. A acústica do local prejudicou muito, principalmente as bandas que usavam distorções e que o baixo era presente. O grave circulava e não dava para definir bem as notas.

O passado de volta

Ribeirão das Neves já foi conhecida pelo Festival Rock Neves. Ele era organizado pelos integrantes da banda Cidadão Comum em conjunto com outras bandas. Trouxeram músicos importantes e os festivais reuniam muita gente. “Até hoje o pessoal pergunta quando vai voltar o Rock Neves”, lembra Tim Santos. O Festival teve sua última edição em 2003. Para Tim, a cada dia ficava mais difícil realizar o festival. Com a criação do coletivo, a esperança de que os bons tempos possam voltar. Com a rede formada pelo Circuito Fora do Eixo e com o auxílio dos outros coletivos, quem sabe Ribeirão das Neves não volte a ser a cidade do Rock Neves. Torcida para que isso aconteça é que não vai faltar.

Quebrando o silêncio

Nos dias 11 e 12 de Dezembro, o Festival Semifusa deu voz à produção musical independente de Ribeirão das Neves

Faltavam sete quilômetros, andamos bastante e ainda faltavam quatro. O caminho para Ribeirão das Neves parecia interminável. Mesmo com toda a ansiedade, os elementos da paisagem nos distraíam. Primeiro foi ver aquela mata, já chegando no município de Ribeirão das Neves, com um monte de capivara, depois a placa que indicava “Compre um lote no belvedere do Ceasa”. “Bem Cães do Cerrado”, comentou Paulo Malibu. Se percebemos tanta coisa foi pelos infinitos quebra-molas até chegar na cidade. Tinha um que parecia imenso, era o medo de passar devagarzinho em frente a penitenciária. Ribeirão das Neves durante alguns anos ficou em completo paradeiro cultural. A cidade abriga os principais presídios da região metropolitana de Belo Horizonte e hoje guarda o estigma da violência. Mas nos dias 11 e 12 de dezembro, com o Festival Semifusa, realizado pelo coletivo de mesmo nome, já foi possível perceber a agitação cultural na cidade. Ribeirão das Neves tem sim muita banda e muita gente que curte o som independente.

E quando chegamos no centro da cidade, não foi difícil encontrar a casa de shows onde acontece o festival. Explicando melhor, não era bem uma casa de shows, era o Balada’s hall. O lugar parecia uma quadra de futebol ou um ginásio escolar. Para trazer um ambiente mais próximo de um evento musical, vários balões decoravam o teto que era de metal. Os belo horizontinos acharam estranho, eu não, sei bem como é fazer evento no interior. Um dos fundadores do coletivo Semifusa, Rodolfo Gullar, me explicou que eles fizeram uma parceria com o dono do galpão e conseguiram esse espaço para o evento. Geralmente, lá é o lugar que toca funk e pagode, mas nesse dia foi espaços para as diferentes bandas da região. Não é lugar adequado para shows, mas sabemos bem que não é de perfeição que a música independente vive, ainda mais para um coletivo recém- nascido como o Semifusa.

O Semifusa começou em abril desse ano e já está bancando festival. Sem muitos recursos, usaram da falta de dinheiro com criatividade. Para realizar o evento, os integrantes do coletivo pagaram 30 reais cada um, dividido em três vezes. Com o dinheiro levantado, compraram um iphone e rifaram. Com isso pagaram o aluguel do som.

Heavy heavy

O primeiro dia do festival foi pesado e contou com várias bandas do coletivo Semifusa. Tinha muita gente de camisa preta, correndo, rolando no chão e fazendo o tradicional mosh. Aquela rodinha típica se formou na frente dos shows. Principalmente quando a banda de Ribeirão das Neves, Última ratio, subiu aos palcos. O pessoal com as camisas Iron Maiden e companhia se aproximaram, no refrão de uma das músicas, todos ergueram os braços e cantaram juntos. O público se animou muito com os shows mais pesados. Diferente foi a terceira banda, a Matraca de Justinópolis, o som era bem mais Pop se comparado com as bandas anteriores. O que não foi suficiente para parar a mosh dos mais empolgados, por que a grande maioria do público, nesse momento, se dispersou.

“Eu já vendi minha guitarra várias vezes por 50 reais depois do show do 4 Instrumental. Se você tiver vontade de vender a sua, não se preocupe, é assim mesmo”, me avisou Flávio Charchar antes da banda começar a tocar. Confesso, fiquei estarrecida e deu mesmo vontade de parar de tocar guitarra ao ver o guitarrista da banda. Eles tocam muito. Nesse momento, o público se reuniu em frente ao palco. A mosh naturalmente acabou e a maioria foi prestar atenção nas músicas. A sutileza do instrumental, as mudanças repentinas, a união perfeita dos integrantes. Foi nesse momento que compreendi a força da música instrumental.

Só amanhã de manhã

Nos dois dias de festival, o público era modesto, no primeiro eu até achei que tinha muita gente, mas no sábado estava mais vazio. Não era o que o coletivo esperava. O integrante da banda Cidadão Comum e do Semifusa, Tim Santos, disse que contavam com mais público. “A gente marcou essas datas e depois percebemos que tinham vários eventos na cidade. Teve muita formatura, por exemplo. E isso faz muita diferença em eventos no interior”, comenta.

Se no começo o espaço estava vazio, com o passar do tempo, as pessoas foram chegando aos poucos. Duas horas depois que já havíamos entrado, começou a tocar a banda Verto de Ribeirão das Neves. A formação era inusitada: Baixo acústico, violão e guitarra. Isso mesmo, não tinha bateria. Quem assistiu, gostou. O guitarrista que tocava com arco de violino e as melodias chamaram a atenção. No começo, eu não senti falta da bateria. Não sei por que, mas eu só lembrava das levadas de bateria do Interpol. Acho que isso significa alguma coisa…

Depois foi a vez da banda Curved. Eles despertaram o público que rapidamente refez a mosh e balançaram muito a cabeça. A Mariana Barbosa foi convidada a cantar uma música. Começaram com Los Hermanos e depois passaram para uma música mais New Metal. Gostei da brincadeira. O Festival se encerrou com a apresentação da banda Cidadão Comum. A acústica do local prejudicou muito, principalmente as bandas que usavam distorções e que o baixo era presente. O grave circulava e não dava para definir bem as notas.

O passado de volta

Ribeirão das Neves já foi conhecida pelo Festival Rock Neves. Ele era organizado pelos integrantes da banda Cidadão Comum em conjunto com outras bandas. Trouxeram músicos importantes e os festivais reuniam muita gente. “Até hoje o pessoal pergunta quando vai voltar o Rock Neves”, lembra TIM Santos. O Festival teve sua última edição em 2003. Para Tim, a cada dia ficava mais difícil realizar o festival. Com a criação do coletivo, a esperança de que os bons tempos possam voltar. Com a rede formada pelo circuito fora do eixo e com o auxílio dos outros coletivos, quem sabe Ribeirão das Neves não volte a ser a cidade do Rock Neves. Torcida para que isso aconteça é que não vai faltar.

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Postado em 19 de dezembro de 2009
às 0h00 por MiSimpatia

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Categorias: Cobertura de Pegada,Festival,Fora do Eixo Minas

Comentários: 8 comentários



 

8 comentários para 'Cobertura de Pegada: Quebrando o silêncio'

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  1. [...] This post was mentioned on Twitter by coletivo Pegada, Fórceps. Fórceps said: “já vendi minha guitarra várias vezes por 50 reais depois do show do 4 Instrumental" http://migre.me/eCZM #CFE [...]

     

  2. Queria ter ido, mas é bom saber que os caras tocaram bem sem mim.

     

  3. “já vendi minha guitarra várias vezes por 50 reais depois do show do 4 Instrumental" http://migre.me/eCZM #CFE

     

  4. RT @coletivoforceps: “já vendi minha guitarra várias vezes por 50 reais depois do show do 4 Instrumental" http://migre.me/eCZM #CFE

     

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  6. FRASE MINHA! RT @coletivoforceps “já vendi minha guitarra várias vezes por 50 reais depois do show do 4 Instrumental" http://migre.me/eCZM

     

  7. RT @coletivoforceps: “já vendi minha guitarra várias vezes por 50 reais depois do show do 4 Instrumental"; http://migre.me/eCZM #CFE

     

  8. RT @coletivopegada: Atualizamos a cobertura do Festival Semifusa 2009 com mais fotos, confere lá: http://bit.ly/5uBzWf

     


 

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