Sustentabilidade da música (Eis a questão)
Por Roger Deff
Viabilizar o trabalho de forma sustentável é uma das principais questões discutidas entre os músicos independentes. Apesar da profusão de espaços (festivais e afins) onde bandas de todos os gêneros podem apresentar suas criações, o problema está justamente em “bancar” os gastos, que vão, desde transporte para shows e ensaios, até o custo das gravações em estúdio. Tudo isso sai caro e as bandas precisam encontrar maneiras de se manter em um cenário onde os festivais (principal via de escoamento dos trabalhos autorais) nem sempre oferecem cachês para os músicos.
Algumas bandas conseguem aprovar projetos e captar recursos através das Leis de Incentivo à Cultura, mas, mesmo esses raros exemplos, precisam lidar com outros gastos relacionados às suas atividades. As alternativas são claras: ou o artista financia seu trabalho com dinheiro do próprio bolso, caso mais comum, ou encontra outras formas de gerar renda a partir do trabalho desenvolvido, o que não é tão simples como parece. Não existem respostas simples para estas questões, então procuramos as opiniões de algumas figuras ligadas diretamente à produção musical independente.
Para Fernando Maia, produtor da banda Zé Trindade, o artista precisa ser despojado no momento de encontrar formas de custear seu trabalho, abraçando alternativas que normalmente são ignoradas pelas bandas autorais, a exemplo da execução de shows covers.
“Que mal tem em tocar covers e releituras onde o público está realmente interessado em relembrar grandes sucessos? Alguns lugares têm espaço pra bandas. Mas o conceito é outro. É um público que não está disposto a parar e ouvir suas criações. Mas, normalmente, este tipo de show rende bons cachês. Já parou pra pensar que talvez isso possa subsidiar o seu trabalho autoral? Afinal de contas, uma boa gravação exige algumas centenas ou milhares de reais. Muitos músicos não conseguem enxergar um trabalho que possa percorrer dois caminhos diferentes, mas que se encontrarão no fim da corrida”, diz.
Outra alternativa apontada por Fernando é a arrecadação a partir das vendas de produtos ligados ao nome da banda.
“Comercializar CDss, DVDs, camisas, bonés, adesivos e outros produtos poderá trazer um valioso complemento à renda mensal, além de contribuir para a disseminação do trabalho”, conclui.
O Produtor Thiago Barizon, de São Paulo, também comenta sobre as dificuldades do percurso da música independente. Para Barizon a realização de shows é apenas uma pequena parte do esforço e o artista deve explorar outras possibilidades para manter seu trabalho.
“Não adianta esperar que tocar em festivais, ou somente fazer shows em sua cidade, ou tocar em SESCs, vá garantir que o seu projeto seja sustentável. Existe toda uma gama de fontes de geração de renda que precisam ser mais exploradas, como merchandise, venda de CDs, licenciamento, etc. Mas esses formatos não dependem somente dos artistas, mas da mobilização de todos os envolvidos na cadeia produtiva para a profissionalização e a articulação”, diz.
Festivais
O papel dos festivais na cadeia produtiva da música também é tema de debate, dada a importância destes espaços para as bandas. O trabalho dos produtores musicais também é árduo. Realizar festivais está longe de ser uma tarefa fácil e, se por um lado os artistas precisam ser remunerados, boa parte dos festivais independentes são realizados no limite, contando com a colaboração de pessoas interessadas em ver o desenvolvimento da cena musical.
Para o produtor Fernando Maia, não cabe aos festivais remunerar as bandas, já que são espaços de divulgação em que os próprios organizadores têm dificuldades em arcar com os custos.
“Enxergo os festivais como uma grande rodada de negócios. A visibilidade, os contatos e a proximidade com o público é que renderão novas apresentações, parcerias e a possibilidade de se destacar entre tantos Myspaces aglomerados e submersos na infinita oferta de conteúdo do cenário atual”, enfatiza.
Já Thiago Barizon apresenta outro ponto de vista em relação aos eventos musicais.
“Existem festivais que são patrocinados, muitos por grandes empresas, e que mesmo assim não pagam os artistas. Nesse caso eu só posso analisar de duas formas: falta de planejamento ou falta de respeito. Quando uma grande empresa abre um edital ou então cede patrocínio, entendendo patrocínio como aporte de capital. Normalmente, isso se dá mediante a análise de um projeto, em que, sem exceções, devem constar as planilhas orçamentárias. Não conheço uma empresa que investiria dinheiro em ações culturais sem saber para onde ele está indo e onde vai ser aplicado. Daí que eu concluo a falta de planejamento, caso o produtor simplesmente esqueça de prever pagamento de cachês, o que provaria a total incapacidade desse sujeito, ou então a falta de respeito, se esse mesmo sujeito já esteja contando com a vontade das bandas de tocarem de graça em troca do tal espaço para divulgação de seu trabalho. Pode-se dizer que essas empresas não pagam 100% do projeto, mas, diante de todos os custos, cortar, justamente, o cachê das bandas, que seriam, a princípio, o motivo de se fazer um festival, é um tanto quanto contraditório.”
A jornalista Rejane Ayres, apresentadora dos programas Replay, Radioteca e Clássicos da OI FM, aponta o crescimento dos festivais, mas reconhece que eles ainda apresentam deficiências no que se refere à remuneração dos artistas.
“A maioria dos festivais realmente “independentes” não tem patrocínio que banque a empreitada toda com seus mil gastos, obviamente isso justifica o “indie”. As bandas não fazem parte do famoso mainstream e por isso não levam grande público e a renda não é suficiente para arcar com as despesas do evento.
Mas já foi pior… há alguns anos, os festivais não tinham nenhuma estrutura ou o mínimo de apoio. Hoje, além de poderem se associar à ABRAFIN, conseguem boas parcerias com casas noturnas locais, que se interessam pelo público consumidor dessa fatia da cena musical, além de apostar em novas ferramentas de divulgação de seus espaços. Mesmo com essa otimização da logística dos festivais, as pequenas bandas indies locais ainda não viram a cor do dinheiro. Vejo a maioria dos festivais pagar cachê apenas para as bandas “de fora” e as bandas locais negociam apenas a renda da portaria ou outro acordo. O argumento é o velho “espaço pra divulgar o trabalho e mostrar as composições próprias”. Mas isso não basta. Um cachê, além de estimular o trabalho, gera outras funções e oportunidades”, comenta.
O rapper belo horizontino, Dokttor Bhu, veterano da cena local, acredita que a ausência de cachês deve-se muito mais a uma falta de planejamento dos produtores do que à escassez de recursos.
“Quando os organizadores estão planejando um evento existe a contratação de profissionais, os técnicos, roadies, etc. Os músicos deveriam estar inseridos na planilha de gastos do evento, o que raramente acontece”, conclui.
Malu Ayres, vocal da banda Junkbox e organizadora do BH Indie, festival que reúne bandas de várias partes do país na capital mineira, fala um pouco da dificuldade da empreitada, tanto do artista quanto da parte de quem organiza os eventos.
“Nosso trabalho é um investimento, e é necessário que separemos o que é gasto de investimento. Cito como exemplo as bandas que vêm de fora e quando retornam às suas respectivas cidades recebem um reconhecimento maior do próprio trabalho, com convites melhores e tudo o mais. Como ‘banda’ já paguei muito pra tocar, assim como muitos de nós artistas independentes. É o gasto com estúdio, táxi, e tudo o mais. Este não é um problema local, mas do país inteiro.
O BH Indie é um festival realizado sem recursos financeiros, então não me intitulo produtora, porque não se produz nada sem grana. Sou uma artista que está a frente da ‘organização’ do projeto. A gente só faz o que faz porque acredita. Nós fazemos música porque acreditamos que isso é o que fazemos de melhor na vida. Tentamos dar o melhor para os artistas que participam do projeto, de uma forma totalmente honesta e clara, mas os recursos são limitados. Agora, projetos patrocinados não remuneram os artistas, mais por falta de organização. O Conexão Vivo é um exemplo de que é possível realizar o evento tratando os artistas mais reconhecidos e os que estão ‘iniciando’ suas trajetórias da mesma forma”, conclui Malu Ayres.
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Postado em 16 de novembro de 2009
às 8h00 por Eduardo Curi
Tags: barizon, bh indie, cache, conexao vivo, cover, festivais, indie, música, remuneracao, rock, roger deff, Show
Categorias: Notícias
Comentários: 5 comentários
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16/11/2009 às 09:20:36
muito boa a matéria, parabéns.
o trabalho não pode parar, um dia chegamos la a essa sustentabilidade que todos queremos.
mas o que realmente nos faz continuar nessa luta é a frase que a amiga Malu comentou.
“Nós fazemos música porque acreditamos que isso é o que fazemos de melhor na vida.”
esse é o nosso combustível, dalle!!!!!
abraço.
Maykel Drummer
17/11/2009 às 16:04:00
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Bacana a matéria e a entrevista com o Tiago (li na íntegra).
@minerio
24/11/2009 às 11:23:50